Estudantes de jornalismo durante premiação
As estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Piauí (UFPI) Antônia Bispo, Camila Tomaz, Jhulianna Cally, Maria Eduarda Rocha, Maria Vitória Silva e Rita de Kássia conquistaram o prêmio de Melhor Podcast no Expocom Nordeste 2026 com o trabalho Flores de Castelo. A premiação integra o Congresso Regional da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), que reconhece os melhores produtos experimentais desenvolvidos por estudantes de Comunicação de instituições de ensino superior da região. O evento foi realizado entre os dias 8 e 10 de julho, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
A professora Aldenora Cavalcante explica que o podcast nasceu como trabalho final da disciplina História do Jornalismo no Piauí, ministrada por ela durante sua atuação como professora substituta na UFPI. A proposta era que os estudantes produzissem um conteúdo em áudio sobre um fato marcante da história do jornalismo piauiense. "Desde o início, elas decidiram abordar o Caso Castelo. Na época, o crime estava prestes a completar dez anos e elas entenderam que era uma história importante para ser contada por meio de um podcast", relembra.
Segundo a docente, acompanhar o desenvolvimento do projeto foi uma experiência enriquecedora. Ela destaca que as estudantes realizaram uma pesquisa aprofundada, visitaram o município de Castelo do Piauí para compreender melhor o contexto da história e demonstraram comprometimento em todas as etapas da produção. "Foi um trabalho muito sensível. Nós discutíamos constantemente como abordar o tema com respeito às vítimas e às suas famílias, mas também de forma que o ouvinte compreendesse a importância e a delicadeza daquele acontecimento. Essa troca foi muito rica", afirma.
Aldenora ressalta ainda que toda a concepção do projeto partiu das próprias estudantes, enquanto seu papel foi orientar e contribuir para o aperfeiçoamento do produto. "A ideia foi cem por cento delas. Meu papel foi orientar um grupo que já estava muito comprometido em fazer um trabalho de qualidade. Elas sempre traziam novas referências, dados e leituras, o que fez toda a diferença no resultado final”, frisa.
Após a conclusão da disciplina, o podcast foi entregue como trabalho acadêmico. A professora conta que permaneceu à disposição para colaborar em eventuais aperfeiçoamentos e voltou a ser procurada pelas ex-alunas alguns anos depois, quando elas decidiram finalizar o projeto para publicação. "Elas voltaram a falar comigo este ano, já com o podcast mais amadurecido e com uma bagagem profissional maior. Queriam fazer os últimos ajustes para publicar o material. Fiquei muito feliz ao perceber que aquele projeto iniciado na disciplina teve continuidade até chegar ao formato final”, pontua.
A professora Lívia Barroso destaca que acompanhou o amadurecimento do podcast durante a disciplina de Radiojornalismo e ressalta o interesse e a dedicação do grupo ao longo de todo o processo. "As alunas Jhulianna Cally, Rita de Kássia, Vitória Silva, Antônia Bispo, Maria Eduarda Rocha e Camila Tomaz estiveram comigo na disciplina de Radiojornalismo e sempre demonstraram muito interesse em trabalhar com a linguagem sonora. Elas abraçaram o projeto com bastante compromisso e sensibilidade”, afirma.
Segundo a docente, o aperfeiçoamento do podcast foi resultado de um trabalho colaborativo entre as estudantes e com participação dela e da professora Aldenora Cavalcante. Enquanto Aldenora orientou a concepção inicial da produção, Lívia contribuiu para o refinamento do roteiro, da narrativa sonora, da escuta crítica e da finalização dos episódios.
Para a professora, a conquista no Expocom Nordeste evidencia a qualidade da formação oferecida pelo curso, mas, principalmente, reconhece o empenho das estudantes. "Esse prêmio é, acima de tudo, mérito do excelente trabalho desenvolvido pelas nossas alunas. Nós, professoras, tivemos o papel de orientar e contribuir para o aperfeiçoamento do projeto, mas a dedicação, o talento e a responsabilidade com que elas conduziram a produção foram fundamentais para esse reconhecimento”, comemora.
Expocom e podcast Flores de Castelo
Considerada uma das mais importantes premiações acadêmicas da área da Comunicação no Brasil, a Exposição de Pesquisa e Produção Experimental em Comunicação (Expocom) valoriza produções desenvolvidas no ambiente universitário, incentivando a integração entre ensino, pesquisa e extensão. Os vencedores da etapa regional garantem vaga para representar suas instituições na etapa nacional do Intercom.
O podcast Flores de Castelo resgata a memória de um dos episódios mais marcantes da história recente do Piauí: o crime ocorrido no Morro do Garrote, em Castelo do Piauí, em 2015. Dividida em três episódios, a produção apresenta uma narrativa sensível e aprofundada, construída a partir de extensa pesquisa documental, entrevistas, levantamento de informações e rigorosa apuração jornalística.
Na foto: a estudante Antônia Bispo ao lado do prêmio Expocom
O podcast propõe uma reflexão sobre memória, violência de gênero, justiça e os impactos que permanecem na vida das famílias e da sociedade anos após o crime. O trabalho envolveu meses de pesquisa, planejamento, roteirização, gravação, edição e desenho sonoro, evidenciando o potencial do podcast como linguagem para o jornalismo narrativo e investigativo.
Para Maria Eduarda Rocha, a conquista do Expocom Nordeste representa o reconhecimento de um trabalho desenvolvido com dedicação, sensibilidade e responsabilidade. Segundo a estudante, mais do que premiar a qualidade técnica da produção, o reconhecimento contribui para manter viva a memória das meninas de Castelo. "Receber o prêmio no Expocom Nordeste foi a confirmação de que todo esse cuidado fez sentido. O que mais nos emociona é perceber que uma história tão importante conseguiu alcançar outras pessoas. O prêmio celebra o nosso trabalho, mas, acima de tudo, ajuda a manter viva a memória das meninas de Castelo”, conta.
Maria Eduarda explica que o projeto passou por um longo processo de amadurecimento. Após a conclusão da disciplina, o grupo decidiu retomar o trabalho, revisar o conteúdo e aprofundar a pesquisa, motivado pela responsabilidade de contar uma história tão delicada.
Responsável pela roteirização e pela narração do podcast, ela afirma que essa foi uma das etapas mais desafiadoras da produção. "Escrever aquele texto, reler inúmeras vezes, encontrar a entonação certa, saber onde fazer silêncio e, ao mesmo tempo, tentar não me emocionar foi um grande desafio. É muito difícil não se envolver com a história das meninas de Castelo”, assinala.
A estudante destaca ainda que o cuidado com a construção sonora foi um dos diferenciais do projeto. "No podcast, cada detalhe comunica: um efeito, uma pausa, uma respiração, a forma como uma frase é dita. Esse cuidado com a linguagem sonora, aliado à força do texto, foi um dos grandes diferenciais do Flores de Castelo”, afirma.
Sobre a classificação para a etapa nacional do Intercom, Maria Eduarda afirma que a expectativa é ampliar ainda mais o alcance da produção. "Levar esse projeto para Brasília representa a oportunidade de fazer essa lembrança atravessar ainda mais fronteiras. Desde o início acreditamos que algumas histórias precisam continuar sendo contadas para que nunca sejam esquecidas”, afirma.
Rita de Kássia relembra que Flores de Castelo surgiu durante a disciplina História do Jornalismo II, que propunha a produção de um podcast sobre uma cobertura marcante da imprensa piauiense. Segundo ela, a escolha do caso foi unânime entre as integrantes do grupo. "O caso nos acompanha desde o primeiro período, quando entrevistamos a jornalista Ithyara Borges. A forma como o jornal O Dia conduziu essa cobertura nos impressionou e passou a ser uma referência de ética e sensibilidade para todas nós”, enfatiza.
A estudante explica que a produção envolveu extensa pesquisa documental, análise de diferentes veículos de comunicação e entrevistas com jornalistas, familiares das vítimas, delegados e autoridades ligadas à proteção dos direitos das mulheres.
Ela também participou da edição dos episódios e afirma que essa foi uma das fases mais intensas do projeto. "Passamos muitas horas ouvindo relatos, reportagens e depoimentos. Cada trilha sonora, cada corte e cada escolha de edição foram feitos com muito cuidado para evitar qualquer abordagem espetacularizada e garantir que as vítimas não fossem revitimizadas”, afirma.
Rita destaca ainda que a identidade visual do podcast, desenvolvida pelas colegas Antônia Bispo e Vitória Silva, também foi concebida com o mesmo cuidado, a partir de pesquisas sobre cores, tipografia e elementos gráficos capazes de representar a mensagem da produção.
Na avaliação da estudante, o reconhecimento conquistado no Expocom ultrapassa a dimensão acadêmica. "O prêmio valida todo o trabalho que realizamos, amplia a visibilidade do Flores de Castelo e fortalece o debate sobre os direitos das mulheres, o combate à violência de gênero e a importância de um jornalismo comprometido com a ética e a responsabilidade”, exclama.
Ela acrescenta que representar a UFPI na etapa regional reforçou a necessidade de ampliar o incentivo às pesquisas e às produções práticas desenvolvidas pelos estudantes. "Fomos o único grupo da UFPI representando o Piauí no Expocom Nordeste. Foi uma conquista muito importante, mas esperamos que, nos próximos anos, mais projetos da Universidade tenham a oportunidade de participar desses espaços, fundamentais para dar visibilidade à produção acadêmica desenvolvida na Instituição”, conclui.