Inseto conhecido por transmitir leishmaniose visceral pode estar envolvido em outra forma da doença no Piauí, diz pesquisador

Pesquisador Leoberto Torres

O pesquisador da Fiocruz Piauí, Leoberto Torres, do Laboratório de Vigilância Entomológica - LVE, é um dos responsáveis por um estudo que vem despertando a atenção da comunidade científica e das autoridades de saúde no Piauí. A pesquisa, intitulada “Ecological perspectives on leishmaniasis parasitism patterns: Evidence of possible alternative vectors for Leishmania infantum and Leishmania braziliensis”, identificou a presença de DNA do parasita Leishmania braziliensis em fêmeas do inseto Lutzomyia longipalpis, vetor historicamente associado à transmissão da leishmaniose visceral.

O achado sugere que o inseto, bastante comum em áreas urbanas e periurbanas, pode também estar envolvido no ciclo da leishmaniose tegumentar, forma da doença caracterizada por lesões na pele, ampliando o entendimento sobre a dinâmica de transmissão no estado.

Além de atuar diretamente na pesquisa, Leoberto Torres colabora com laboratórios da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e integrou, como colaborador, o Centro de Inteligência em Agravos Tropicais Emergentes e Negligenciados (CIATEN), organização vinculada ao Instituto de Doenças do Sertão. A instituição é voltada ao aprimoramento das estratégias de controle de doenças tropicais emergentes e negligenciadas, com atenção especial ao cenário epidemiológico do Piauí.

Segundo o pesquisador, os resultados não confirmam, por si só, a transmissão da leishmaniose tegumentar pelo Lutzomyia longipalpis, mas acendem um importante alerta. “O que observamos foi a presença de DNA de Leishmania braziliensis nesse inseto. Isso sugere que ele pode estar envolvido, ao menos parcialmente, no cenário de transmissão da forma tegumentar em algumas áreas. Ainda não podemos afirmar que há transmissão, pois isso precisa ser comprovado em laboratório”, explica.

A pesquisa analisou flebotomíneos coletados nos municípios de Teresina, Altos, Pedro II e Oeiras, selecionados por representarem diferentes realidades ambientais e epidemiológicas. “Esses municípios incluem áreas urbanas e rurais, além de variações de altitude e clima. Isso nos permite entender como os vetores se adaptam e como a transmissão pode se comportar de maneira distinta conforme o ambiente”, detalha Torres.

Para o pesquisador, um dos principais impactos do estudo está na possibilidade de revisão das estratégias de controle da doença. “Cada forma de leishmaniose sempre foi associada a um vetor principal. Se um vetor comum e altamente adaptado às cidades, como o Lutzomyia longipalpis, estiver participando também do ciclo da leishmaniose tegumentar, isso pode dificultar o controle e exigir uma vigilância muito mais integrada”, avalia.

Leoberto Torres ressalta ainda que o achado aponta para um aumento do risco potencial de transmissão, sem representar, entretanto, uma ameaça imediata. “Isso não significa que os casos vão aumentar de forma explosiva. O estudo mostra que o parasita está circulando e que um inseto que vive muito próximo das pessoas teve contato com ele. Além disso, há evidências de que esses flebotomíneos se alimentam de sangue humano, o que pesa na avaliação do risco”, pontua.

Outro aspecto destacado é a necessidade de vigilância epidemiológica e entomológica contínua. “A leishmaniose não é uma doença estática. Ela muda conforme o ambiente, o clima, a urbanização, a presença de animais e o deslocamento humano. Sem vigilância permanente, a doença muda de lugar e só percebemos quando o problema já se transformou em surto”, alerta.

Quanto aos próximos passos, o pesquisador afirma que o foco agora é fortalecer as evidências científicas. “Precisamos testar um número maior de amostras, analisar indivíduos isoladamente, verificar se o parasita está em condições compatíveis com a transmissão, tentar o isolamento do parasita viável e realizar estudos de competência vetorial em laboratório”, explica. Parte dessas etapas estava prevista durante o doutorado, mas não pôde ser concluída devido às restrições impostas pela pandemia da Covid-19. Ainda assim, o trabalho de campo já responde parcialmente à hipótese de que a tríade epidemiológica da leishmaniose no Piauí pode estar passando por mudanças.

Apesar da relevância do achado, Leoberto Torres reforça que a identificação de DNA do parasita não caracteriza automaticamente um novo vetor da doença. Para esse reconhecimento, é necessário um conjunto mais robusto de evidências, como a presença do parasita vivo em estágio infectante, a comprovação do comportamento de picar humanos e a demonstração experimental da capacidade de transmissão.

Medidas de prevenção recomendadas à população

Reduzir possíveis abrigos do flebotomíneo próximo às residências, mantendo quintais limpos e sem acúmulo de folhas e matéria orgânica;
Cuidar do peridomicílio: galinheiros, chiqueiros e abrigos de animais, quando existentes, devem permanecer limpos e, sempre que possível, afastados das casas;

Adotar proteção individual ao entardecer e à noite, período de maior atividade do inseto, com uso de repelentes, roupas mais compridas, telas em portas e janelas e mosquiteiros em áreas de maior risco;

Procurar atendimento de saúde ao surgimento de lesões suspeitas na pele que não cicatrizam, especialmente em áreas com registro de transmissão da doença.