Professor da UFPI debate a questão negra, o racismo e a justiça epistêmica no City College

Professor Mairton Celestino durante evento acadêmico no City College of New York (CCNY)

Durante a primeira semana de fevereiro, o professor Mairton Celestino, do curso de História do Campus Senador Helvídio Nunes de Barros (CSHNB/UFPI), participou como palestrante convidado do Seminário Brasil, realizado no City College of New York (CCNY), uma das instituições públicas mais tradicionais dos Estados Unidos. O evento foi coordenado pelo professor Gregory Duff Morton e promovido pelo Centro de Língua Portuguesa e Cultura Lusófona.

O seminário reuniu pesquisadores brasileiros e estrangeiros interessados em discutir temas relacionados à história, cultura e aos desafios contemporâneos do Brasil. Na ocasião, o docente da UFPI apresentou experiências desenvolvidas no estado do Piauí que têm enfrentado o apagamento histórico por meio de ações diretas em comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas, articulando ensino, pesquisa e extensão.

A palestra de abertura do evento, intitulada “O negro no Brasil contemporâneo: cinco estratégias práticas na luta por direitos, memória e reparação histórica”, teve como objetivo analisar os dilemas e desafios da incompletude do conceito de cidadania para a população negra no Brasil. A partir de cinco ações práticas de enfrentamento ao racismo, luta pelo acesso à terra e valorização dos saberes tradicionais, o professor apresentou iniciativas conduzidas por docentes do curso de História da UFPI vinculados ao Núcleo de Pesquisa e Documentação em História (NUPEDOCH).

Segundo Mairton Celestino, as ações desenvolvidas pela Universidade têm impacto direto nos territórios e na formação acadêmica. “O que fazemos na UFPI é um trabalho que ultrapassa os muros da universidade. São práticas que articulam conhecimento científico e saberes tradicionais, fortalecendo comunidades historicamente marginalizadas e formando estudantes comprometidos com a transformação social”, destacou.

Um dos momentos que mais despertou o interesse da plateia foi a apresentação do Projeto Brasil–Bolívia, financiado pelo Edital Abdias Nascimento/CAPES. A iniciativa, coordenada na UFPI pela professora Maria do Socorro, do Centro de Ciências da Educação (CCE), promove o diálogo entre pesquisadores, movimentos sociais e comunidades afrodescendentes e indígenas dos dois países. O projeto tem como foco o intercâmbio de estratégias de resistência, o mapeamento de territórios tradicionais e o compartilhamento de metodologias de educação antirracista.

Para o docente, a cooperação internacional de caráter sul-sul representa um contraponto aos modelos eurocêntricos de produção do conhecimento. “Essa parceria cria um espaço de aprendizado mútuo e de fortalecimento político. O racismo não respeita fronteiras geopolíticas; ele opera como uma estrutura que se manifesta de formas semelhantes nas Américas, ainda que com particularidades locais”, explicou.

Mairton Celestino também ressaltou que compreender essas dinâmicas ajuda a explicar os avanços e limites das políticas públicas no Brasil. “Muitas iniciativas esbarram na morosidade administrativa, na oferta apenas do mínimo em políticas afirmativas e, sobretudo, na negação do racismo como elemento estruturante da sociedade brasileira”, afirmou.

Ao final, o professor enfatizou o caráter prático e transformador das ações desenvolvidas pela UFPI. “Não estamos apenas estudando o passado. Estamos instrumentalizando comunidades indígenas e quilombolas, assim como jovens estudantes da graduação, para que sejam mais do que narradores de suas próprias histórias. Queremos que sejam defensores de seus territórios, de suas visões de mundo e agentes na ampliação do conceito de cidadania para todos os sujeitos”, concluiu.